Imersão em nome da Trindade (Mt 28:19)? Mitos e verdades

Imersão em nome da Trindade (Mt 28:19)?

Mitos e verdades

Por Tsadok Ben Derech

Atualmente, muitos grupos sustentam que a redação de Matityahu (Mateus) 28:19 foi adulterada maliciosamente, e que no original não constava a cláusula “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Alegam tais grupos que o texto de Mt 28:19 foi alterado pela Igreja Católica para fundamentar a “Doutrina da Trindade”.

Neste breve estudo, demonstraremos qual a redação original de Mt 28:19, e que o texto nada tem que ver com a Doutrina da Trindade.

Ora, tanto a Peshita em aramaico quanto o manuscrito em hebraico de DuTillet falam em imersão em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh, e estes manuscritos não passaram pelas mãos da Igreja Católica. No mesmo sentido, dispõem os antigos textos gregos: 1) Codex Sinaiticus, 2) Codex Alexandrinus, 3) Codex Vaticanus, 4) Codex Washingtonianus e 5) Codex Bezae.

Todavia, no tardio Manuscrito hebraico de Shem Tov, datado da Idade Média (1385 DC), o texto de Mt 28:19 somente possui duas palavras: אתם לכו (Ide Vós), e o verso se encerra por aí. Porém, é de conhecimento público e notório que o Manuscrito Shem Tov é uma cópia rabínica de Mateus, e foi subscrito pelo rabino Shem Tov para atacar a fé daqueles que creem em Yeshua. Logo, não pode servir de parâmetro, tanto em razão de sua finalidade quanto em função de ser documento subscrito tão somente no século XIV.

Vejamos a redação de manuscritos da B’rit Chadashá:

Peshita (aramaico):

ܙܶܠܘ ܗܳܟ݂ܺܝܠ ܬ݁ܰܠܡܶܕ݂ܘ ܟ݁ܽܠܗܽܘܢ ܥܰܡ݈ܡܶܐ ܘܰܐܥܡܶܕ݂ܘ ܐܶܢܽܘܢ ܒ݁ܫܶܡ ܐܰܒ݂ܳܐ ܘܰܒ݂ܪܳܐ ܘܪܽܘܚܳܐ ܕ݁ܩܽܘܕ݂ܫܳܐ

DuTillet (hebraico):

לכן אתם לכו ולמדו כל הגויים וטבל אותם בשם האב והבן ורוח הקדש

Codex Sinaiticus (grego):

Πορευθεντες μαθητευσατε παˉτα τα εθνη βαπτιζοντες αυτους εις το ονομα του Π̅Ρ̅Σ̅ και του Υιου και του Αγιου Π̅Ν̅Σ̅

Codex Alexandrinus (grego):

Πορευθεντες μαθητευσατε παντα τα εθνη βαπτιζοντες αυτους εις το ονομα του Π̅Ρ̅Σ̅ και του Υ̅Υ̅ και του Αγιου Π̅Ν̅Σ̅

Codex Vaticanus (grego):

πορευθεˉτες ουν μαθητευσατε παντα τα εθνη βαπτισαντες αυτους εις το ονομα του πατρος και του υιου και του αγιου πνευματος

Codex Washingtonianus (grego):

Πορευθεντες ουν μαθητευσατε παντα τα εθνη βαπτιζοντες αυτους εις το ονομα του Π̅Ρ̅Σ̅ και του Υιου και του Αγιου Π̅Ν̅Σ̅

Codex Bezae (grego):

Πορευεσθαι νυν μαθητευσατε παντα τα εθνη βαπτισαντες αυτους εις το ονομα του Πατρος και Υιου και του Αγιου Π̅Ν̅Σ̅

Todos os textos acima, inclusive em aramaico e em hebraico, contêm a cláusula “em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh”. Insta repetir: a Peshita (aramaico) e o manuscrito de DuTillet (hebraico) não foram criados pela Igreja Católica.

Eis o texto e respectiva tradução da Peshita (aramaico):

ܙܶܠܘ ܗܳܟ݂ܺܝܠ ܬ݁ܰܠܡܶܕ݂ܘ ܟ݁ܽܠܗܽܘܢ ܥܰܡ݈ܡܶܐ ܘܰܐܥܡܶܕ݂ܘ ܐܶܢܽܘܢ ܒ݁ܫܶܡ ܐܰܒ݂ܳܐ ܘܰܒ݂ܪܳܐ ܘܪܽܘܚܳܐ ܕ݁ܩܽܘܕ݂ܫܳܐ

“Portanto, vão e façam discípulos [ou: ensinem] dentre todos os povos [ou: gentios], imergindo-os em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh”.

Portanto, percebe-se que a redação de Mt 28:19, tal como consta nas Bíblias modernas, está correta.

Isto quer dizer que os manuscritos semitas sustentam a doutrina da Trindade? NÃO.

Primus, Mt 28:19 não usa a palavra “Trindade”, e nem sustenta explicitamente tal doutrina. Aliás, muitas pessoas creem na veracidade de Mt 28:19 e são antitrinitárias. Em outras palavras, Mt 28:19 é usado tanto por aqueles que defendem a Trindade quanto por aqueles que são totalmente contrários ao dogma trinitário.

Secundus, o texto de Mt 28:19 não versa sobre a “Doutrina da Trindade”, mas sim sobre os três gaunin/k’numeh (manifestações, essências, substâncias, aspectos) de YHWH.

Tertius, de acordo com as Escrituras, é líquido e certo que:

1) YHWH é UM (echad), consoante Dt 6:4 e Mc 12:29;

2) o Pai é YHWH (Gn 1:1; Is 63:16 e 64:7 [ou Is 64:8]; Ml 1:6);

3) o Filho, Yeshua HaMashiach, é YHWH (Is 9:5-6 [ou Is 9:6-7]; Jo 1:1; Fp 2:11 em aramaico; veja que Jo 19:37 cita Zc 12:10, cujo narrador é YHWH);

4) a Ruach HaKodesh é YHWH (Gn 1:2; Is 63:1-11; Sl 51:1-11; II Co 3:16-18).

Em suma, YHWH é UM, mas se manifesta por meio de três gaunin/k’numeh. Logo, a cláusula de Mt 28:19 se refere a estes três gaunin/k’numeh, e não sobre a “Trindade”. Importante observar que a palavra “nome” está no singular, pois os três gaunin/k’numeh possuem um único nome: YHWH.

Quartus, não só Mt 28:19 fala sobre o Pai, o Filho e a Ruach HaKodesh, pois existem diversas outras passagens das Escrituras que versam sobre a tríplice manifestação de YHWH. Eis alguns textos que apontam para a emanação tríplice do ETERNO, aparecendo expressamente o Pai, o Filho e a Ruach:

“Quando todo o povo estava sendo imerso, também Yeshua [o Filho] o foi. E, enquanto ele estava orando, o céu se abriu e a Ruach HaKodesh [o Espírito] desceu sobre ele como pomba. Então veio do céu uma voz [o Pai]: Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado” (Lucas 3:21-22).

“A graça do Senhor Yeshua HaMashiach, o amor de Elohim [Pai] e a comunhão da Ruach HaKodesh sejam com todos vocês” (Curintayah Bet/2ª Coríntios 13:14).

“escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Elohim Pai, pela obra santificadora da Ruach, para a obediência a Yeshua HaMashiach …” (Keyfá Álef/1ª Pedro 1:2).

“Bendito seja Elohim Pai e nosso Senhor Yeshua HaMashiach, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais pelo Mashiach.

(…)

Quando vocês ouviram e creram na palavra da verdade, a boa nova que os salvou, vocês foram selados no Mashiach com a Ruach HaKodesh da promessa.” (Efessayah/Efésios 1:3 e 13).

“E eu [Yeshua, o Filho] pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro [a Ruach HaKodesh] para estar com vocês para sempre,

a Ruach [Espírito] da verdade. O mundo não pode recebê-la, porque não a vê nem a conhece. Mas vocês a conhecem, pois ela vive com vocês e estará em vocês.

(…)

Mas o Conselheiro, a Ruach HaKodesh, que o Pai enviará em meu nome [Yeshua], lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse” (Yochanan/João 14: 16, 17 e 26).

“quanto mais o sangue do Mashiach [o Filho], que pela Ruach eterna se ofereceu de forma imaculada a Elohim, purificará a nossa consciência de atos que levam à morte, para que sirvamos ao Elohim vivo!” (Ivrim/Hebreus 9:14).

Assim sendo, percebe-se facilmente que a imersão em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh não se relaciona com a Doutrina da Trindade, mas sim com a tríplice manifestação de YHWH, conforme se depreende da leitura dos versos acima citados.

Releva registrar que a expressão “em nome do Pai, do Filho e da Ruach” não é, necessariamente, uma fórmula a ser pronunciada na imersão, mas tão somente a indicação dos gaunin/k’numeh de YHWH. Por outro lado, a imersão “em nome de Yeshua” (At 2:38) também não é obrigatoriamente uma fórmula verbal, mas o reconhecimento de que Yeshua é o Mashiach.

O que os grupos no Brasil não entendem, e por isso discutem sem sentido algum, é que inexiste qualquer fórmula a ser repetida na imersão. Dizendo de outro modo, não é necessário dizer: “eu faço sua imersão em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh”; e também não é preciso falar:  “eu faço sua imersão em nome de Yeshua HaMashiach”.

Ora, o importante é que o talmid (discípulo) a ser imerso creia em YHWH, e também creia na manifestação tríplice de YHWH: Pai, Filho e Ruach HaKodesh. Não há tanta relevância nas palavras a serem pronunciadas, mas sim na genuína intenção do coração.

Eis a b’rachá comumente adotada pelo Judaísmo ao se fazer a imersão:

ברוך אתה יהוה אלוהינו מלך העולם אשר קדשנו במצותיו וצונו על הטבילה

Bendito sejas Tu, YHWH, nosso Elohim, Rei do Universo, que nos santificaste com teus mandamentos e nos ordenaste acerca da imersão.

Também há a seguinte versão alternativa para a b’rachá de imersão:

ברוך אתה יהוה אלוהינו מלך העולם אשר קדשנו בטבלה במים חיים

Bendito sejas Tu, YHWH, nosso Elohim, Rei do Universo, que nos santificaste pela imersão em águas vivas.

Tais fórmulas podem ser usadas livremente pelos discípulos de Yeshua, desde que aqueles que recebam a imersão creiam em YHWH, e em sua manifestação tríplice. Todavia, como dito, o importante não é o conjunto de palavras a serem pronunciadas, mas a kavaná – genuína e pura intenção do coração.

Aqueles que pregam incorretamente a invalidade de Mt 28:19 levantam o seguinte questionamento: Por que em Matityahu (Mateus) a imersão é em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh (Mt 28:19), e em Atos a imersão é em nome de Yeshua HaMashiach (At 2:38)? Isto não seria prova da contradição interna da B’rit Chadashá?

Não! Muitas pessoas não percebem que existe uma distinção nas Escrituras acerca das seguintes pessoas: 1) judeus e prosélitos que passam a crer que Yeshua é o Mashiach; 2) pagãos que se convertem ao ETERNO, e também creem em Yeshua Mashiach.

Ora, na época dos sh’lichim (emissários/“apóstolos”), os judeus e os prosélitos já criam no Pai (Is 63:16) e na Ruach HaKodesh (Gn 1:2). Por conseguinte, a única novidade seria o reconhecimento de que Yeshua é o Mashiach, e por isto a imersão ocorria apenas “em nome de Yeshua HaMashiach” (At 2:38).

Por outro lado, os pagãos adoravam vários deuses e não tinham nenhum relacionamento com YHWH. É por este motivo que Yeshua leciona em relação aos pagãos (Mt 28:19): “Ide e fazei discípulos entre todos os goyim [gentios = pagãos], imergindo-os em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh”. Ou seja, para os pagãos convertidos, outrora integrantes de religiões politeístas, havia a necessidade de se explicar que YHWH é um, mas que se manifesta por meio dos gaunin/k’numeh (naturezas, essências) do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh, e esta é a razão pela qual as três essências do ETERNO são mencionadas em Mt 28:19.

Resumindo:

1) para judeus e prosélitos a imersão ocorria em nome de Yeshua (At 2:38), tendo em vista que já conheciam o Pai e a Ruach HaKodesh;

2) para pagãos convertidos a imersão ocorria em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh (Mt 28:19), porquanto desconheciam totalmente a tríplice essência de YHWH, em decorrência de serem provenientes de culturas idólatras, alheias ao Judaísmo.

No sentido do presente estudo, mister conferir o comentário de John Ligthfoot, grande especialista em Talmud:

“Os apóstolos batizavam os judeus em nome de Jesus, o Filho; e os Gentios, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Commentary on the New Testament from the Talmud and Hebraica, Volume II, Hendrickson Publishers, 2003, página 383).

Cumpre dissertar, aqui e agora, acerca dos argumentos ventilados por aqueles que negam a originalidade de Mt 28:19, bem como externar os motivos pelos quais suas premissas estão incorretas.

Os defensores da nulidade de Mt 28:19 advogam as seguintes teses:

1) Tertuliano, o primeiro escritor cristão a discorrer sobre a “Doutrina da Trindade”, foi quem inventou “o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Frei Dagoberto Romag, Compêndio da História da Igreja);

2) Leciona David Flusser que “a ordem de batizar e a fórmula trinitária faltavam em todas as citações da passagem de Mateus nos escritos de Eusébio anteriores ao Concílio de Nicéia. O texto de Eusébio de Mt 28:19-20 antes de Nicéia era o seguinte: ‘Ide e tornai todas as nações discípulas em meu nome, ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei’” (O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, Volume II, Imago, 1988, página 156);

3) Nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém afirma sobre Mt 28:19: “É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro de Atos fala em batizar ‘no nome de Jesus’ (cf. At 1,5+; 2,38+). Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da Trindade” (Bíblia de Jerusalém, editora Paulus, 2011, página 1758);

4) Somente no quarto século a fórmula “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” tornou-se uma prática costumeira;

5) Escreveu Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) que o batismo trinitário não era uma prática original, e veio da cidade de Roma (Introduction to Christianity, páginas 82 e 83).

Como visto, as teses acima afirmam que o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo somente surgiu com Tertuliano, cuja obra é datada do início do terceiro século, e que foi consolidado definitivamente no Concílio de Niceia (325 DC), já no quarto século. Assim sendo, a Igreja Católica teria alterado o texto de Mt 28:19.

Qual o grande erro histórico das teses ventiladas?

Resposta: Existem textos anteriores à obra de Tertuliano (terceiro século) e ao Concílio de Niceia (quarto século) acerca de Mt 28:19, testificando a imersão em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh. Em consequência, o Concílio de Niceia não inventou o texto de Mt 28:19, porquanto sua redação é muito mais antiga, consoante se observa nas passagens a seguir colacionadas:

DIDAQUÊ 7:1 (metade do primeiro século[1]), compilação de fontes orais dos emissários de Yeshua:

“Mas a respeito da imersão, assim vocês os imergirão. Tendo recitado primeiro todas estas coisas, batizem em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, em águas vivas (correntes)”.

 (Lightfoot, J. B., & Harmer, J. R., 1891. The Apostolic Fathers, página 232. London: Macmillan and Co).

DIATESSARON DE TACIANO (120 a 180 DC), primeira harmonia dos quatro evangelhos em siríaco (aramaico):

“Ide agora a todo o mundo, e pregai meu evangelho a toda criatura; e ensinai a todos os povos, e batizai-vos em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

(The Diatessaron of Tatian. In A. Menzies, (Org.), H. W. Hogg, (Trad.), The Gospel of Peter, the Diatessaron of Tatian, the Apocalypse of Peter, the Visio Pauli, the Apocalypses of the Virgil and Sedrach, the Testament of Abraham, the Acts of Xanthippe and Polyxena, the Narrative of Zosimus, the Apology of Aristides, the Epistles of Clement (Complete Text), Origen’s Commentary on John, Books I-X, and Commentary on Matthew, Books I, II, and X-XIV, Vol. 9, p. 128. New York: Christian Literature Company)

JUSTINO MÁRTIR (100 a 165 DC):

“Em seguida, eles são trazidos por nós onde há água, e são regenerados da mesma maneira em que nós mesmos fomos regenerados. Pois, em nome de Deus, o Pai e Senhor do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo, então, eles recebem a lavagem com água”.

(The First Apology of Justin. In A. Roberts, J. Donaldson, & A. C. Coxe, (Orgs.), The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus, Vol. 1, p. 183. Buffalo, NY: Christian Literature Company).

IRINEU DE LYON (130 a 202 DC):

“E mais uma vez, dando aos discípulos o poder de regeneração em Deus, Ele lhes disse: ‘Ide e ensinai a todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo’. Pois prometeu [Deus] que nos últimos tempos iria derramar Ele [o Espírito] sobre [seus] servos e servas, para que pudessem profetizar”.

(Irenæus against Heresies. In A. Roberts, J. Donaldson, & A. C. Coxe (Orgs.), The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus, Vol. 1, p. 444. Buffalo, NY: Christian Literature Company).

CIPRIANO DE CARTAGO (200 a 258 DC):

“O Senhor, quando após a Sua ressurreição, enviou os Seus apóstolos, ordenou-lhes, dizendo: ‘Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado’”.

(The Epistles of Cyprian. In A. Roberts, J. Donaldson, & A. C. Coxe (Orgs.), R. E. Wallis (Trad.), Fathers of the Third Century: Hippolytus, Cyprian, Novatian, Appendix, Vol. 5, p. 302. Buffalo, NY: Christian Literature Company).

Ora, todas as citações acima são anteriores ao Concílio de Niceia (325 DC), e as quatro primeiras antecedem à própria obra de Tertuliano, que desenvolve a “Doutrina da Trindade”. Logo, cai por terra o argumento de que Mt 28:19 foi adulterado pelo Concílio de Niceia.

À guisa de conclusão, as ideias desenvolvidas no presente estudo podem ser compendiadas nas seguintes proposições objetivas:

1) a Peshita em aramaico e o manuscrito em hebraico de DuTillet falam em imersão em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh, e estes manuscritos não passaram pelas mãos da Igreja Católica. O texto de Mt 28:19 também é atestado por antigos textos gregos: 1) Codex Sinaiticus, 2) Alexandrinus, 3) Vaticanus, 4) Washingtonianus e 5) Bezae;

2) Mt 28:19 não sustenta a Doutrina da Trindade, mas versa sobre os três gaunin/k’numeh (manifestações, essências, substâncias, aspectos) de YHWH;

3) Os três gaunin têm por fundamento as próprias Escrituras: a) o Pai (Gn 1:1; Is 63:16 e 64:7 [ou Is 64:8]; Ml 1:6); b) o Filho (Sl 2; Is 9:5-6 [ou Is 9:6-7]; Jo 1:1; Fp 2:11) e c) a Ruach (Gn 1:2; Is 63:1-11; Sl 51:1-11; II Co 3:16-18);

4) Além de Mt 28:19, existem na B’rit Chadashá diversos outros textos bíblicos que mencionam simultaneamente o Pai, o Filho e a Ruach HaKodesh (Lc 3:21-22; 2 Co 13:14; 1 Pe 1:2; Ef 1:3 e 13; Jo 14:16, 17 e 26; Hb 9:14);

5) Mt 28:19 não é uma fórmula verbal a ser, necessariamente, pronunciada durante a imersão;

6) Não existe contradição entre Mt 28:19 e At 2:38. Nos primórdios da comunidade dos discípulos, chegou a haver a seguinte distinção: a) para judeus e prosélitos a imersão ocorria em nome de Yeshua (At 2:38), tendo em vista que já conheciam o Pai e a Ruach HaKodesh; b) para pagãos convertidos a imersão ocorria em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh (Mt 28:19), porquanto desconheciam totalmente a tríplice essência de YHWH, em decorrência de serem provenientes de culturas idólatras, alheias ao Judaísmo (Commentary on the New Testament from the Talmud and Hebraica, Volume II, Hendrickson Publishers, 2003, página 383);

7) O texto de Mt 28:19 não foi adulterado no Concílio de Niceia (325 DC), sob a influência da obra trinitária de Tertuliano (terceiro século), visto que existem diversas citações anteriores sobre a imersão em nome do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh (Didaquê 7:1, metade do primeiro século; Diatessaron de Taciano, meados do segundo século; Justino Mártir, segundo século; Irineu de Lyon, segundo século).

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